terça-feira, 7 de junho de 2011

Gritos

Devo andar mais sensível aos decibéis das palavras, ou serão os fones de ouvido que reduziram a capacidade auditiva do mundo, mas o fato é que acho que as pessoas gritam cada vez mais. E não gritam somente para se fazerem ouvidas. Gritam porque precisam se impor, porque querem ferir, porque precisam se defender, porque necessitam se ouvir, porque gritar é uma forma simbólica de dizer "eu posso mais que você".

As boas coisas da vida são ditas em tons mais baixos e isso não quer dizer - pelo menos ao meu olhar - restrição à liberdade de falar alto, de rir com vontade, de fazer uso dos gestos largos. Eu falo de gritos que significam desrespeito e rispidez.

Tem coisa pior do que brigar com alguém que a gente gosta, e conversar entre si aos gritos? Pior ainda quando essa "conversa" é recheada de expressões ou entonações que não disfarçam a opção por agredir, incomodar, ferir, como se fosse uma oportunidade para subir ao ringue e tentar vencer, impondo dor e o prazer da conquista. Não gosto disso.

Cada vez gosto menos de gritos. Curto ouvir músicas e cantar bem alto, vibrar quando for gol do Corinthians, mas não vou à janela com a intenção clara de gritar "timão" e fazer disso uma forma para incomodar o meu vizinho "palmeirense". Não gosto nada quando ele faz isso. E ele faz sempre. Prá ser feliz não é preciso fazer alguém se sentir incomodado.

Outro dia estava indo trabalhar e li no jornal sobre um passageiro que ao entrar no ônibus e encontrar o motorista , que também era trocador, ouvindo música nos mais descontrolados decibéis, perguntou: "Tenho que pagar couvert para entrar no ônibus?". Eu quase nunca andei de ônibus ou metrô, mas muitas pessoas usam cotidianamente, e os relatos são diários sobre a falta de civilidade no comportamento coletivo. Pessoas usam celulares como verdadeiras jukebox, abrindo mão do fone de ouvido e obrigando todo mundo a escutar o que querem escutar, na altura que julgam adequado o suficiente para mais ou menos dizer: "que se f...", outro dia no avião, sentou um desses do meu lado...a viagem que tem de duração 2 horas e 20 minutos pareceu que durou um dia todo com o Sr. Moço ouvindo forró no laptop sem os benditos fones.

Eu adimito que sou uma pessoa especialmente argumentativa - e até penso que devo ser chata na minha insistência em discutir questões e esmiuçar pontos, sou detalhista ao extremo - mas evito ao máximo fazer do tom da minha voz algo que somado à minha habilidade em defender pontos e idéias se transforme numa arma ferina, as vezes eu grito, é claro que eu grito, quem não faz isso quando perde a cabeça?? O que eu não gosto é de pessoas que fazem disso, uma motivação de vida. Até porque, nem sempre é preciso gritar para ferir porque palavras podem ser armas letais. Mas gritos tem o poder de mexer com o equilíbrio do mundo. Usá-los em vão, como viagem cuja única direção é a idéia de vencer ou ferir alguém, é um desperdício e uma expressão do desamor.

Não gosto de gritos, não gosto que gritem comigo, não gosto de mim quando o faço também. Nem mesmo quando escrevo faço uso de sinais gráficos que potencializem a expressão do que quero dizer. Nada de !!!!!!!!!!! ou de ?????????????? ou de #&#@#,  gosto de amor, carinho, gestos intensos, de palavras e olhares doces, e que no final, tudo fique bem. 

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